As duas histórias do sofware livre

[Post escrito em 16/08/16 depois de uma apresentação na Semana de SI]

O software livre tem duas histórias. O marco da primeira, contada por Richard Stallman, é a redação do manifesto GNU no começo dos anos 80 quando surgiam os primeiros softwares proprietários. Segundo o excêntrico militante, a gota d’ água que o levou a escrever o manifesto, que posteriormente deu origem à licença GPL, teria sido a aquisição de uma impressora com drivers proprietários pelo seu departamento no MIT. A frustração em não poder hackear o novo equipamento o fez refletir sobre como uso do direito autoral nos softwares levaria ao fim da cultura do livre compartilhamento de código dos anos 70 que, como bem lembrou a professora Gisele, era própria do ambiente universitário. A licença GPL foi concebida então como uma reação a esse ataque e garantia as liberdades fundamentais dos usuários: usar o software, distribuí-lo, ler seu código, alterá-lo e distribuir versões alteradas. Como primeiro projeto software livre, o GNU era pretensioso, almejava reescrever todo o sistema Unix em licenças livres.

A segunda história se passa no começo dos anos 90. Naquele momento o projeto GNU estava muito avançado, mas não tinha sido bem sucedido em sua tarefa mais difícil: reescrever o kernel do sistema operacional. O kernel é o núcleo do sistema, é a parte responsável por comunicar com a memória e processar, escalonar o processamento etc. Por sua complexidade muitos achavam ser impossível desenvolvê-lo sem uma equipe de bons e bem pagos programadores. O fracasso do projeto GNU nesse ponto parecia corroborar a tese, mas o jovem Linus Trovalds provaria o contrário. Por sua genialidade não só como programador, mas também em envolver seus colegas de turma no desenvolvimento do projeto fazendo intenso uso das novas tecnologias de comunicação via internet, Linus não só foi bem sucedido na tarefa de desenvolver um kernel livre, o Linux, como inspirou seu colega Eric Raymond a descrever, no influente livro “a catedral e o bazar”, o modelo de desenvolvimento baseado em frequentes atualizações do software e enorme envolvimento da comunidade. A fama do livro chegou rapidamente aos executivos da empresa que mantinha o Netscape, principal navegador da época, que viram no modelo software livre uma esperança contra a estratégia agressiva da Microsoft de incluir o internet explorer junto de seu sistema operacional (prática que rendeu inúmeros processos à empresa). Os mantenedores do Netscape temiam que, caso a Microsoft monopolizasse o mercado de navegadores, ela impusesse um padrão de facto às linguagens da web que ameaçaria o mercado de servidores da empresa. Numa reunião com Raymond e publicitários, a empresa bolou uma estratégia de marketing que passava por abrir o código do navegador para mantê-lo com uma fatia relevante do mercado. Na avaliação do grupo, porém, a militância pela liberdade do usuário afastaria possíveis investidores. Foi então cunhado o termo open source (código aberto) para substituir o free software (software livre) que, além do estigma, possuía uma ambiguidade no inglês (free significa livre, mas também gratuito) e o Netscape, com seu código aberto, passou a se chamar Firefox.

Seguindo a tese do Rafael Evangelista, essas histórias representariam as duas vertentes do movimento software livre: os grupos free e open. Apesar de possuírem inimigo comum, as licenças proprietárias, o primeiro enfatizaria as liberdades do usuário enquanto o segundo a qualidade do software e sua forma mais eficiente de desenvolvimento. O marco da chegada do movimento ao Brasil foi a primeira edição do Fórum internacional de software livre (Fisl) em Porto Alegre que se tornaria o maior encontro mundial do tema. O movimento por aqui também possui as duas vertentes, mas a primeira (free) é muito marcada por uma integração com outros movimentos sociais, especialmente os movimentos de economia solidária e campesinos. Militantes tradicionais de esquerda no Brasil viram no software livre uma forma de libertar o país das grandes empresas de software dos EUA e uma proximidade com os ideais de cooperativismo.

Em 2016 me pergunto, e creio que não sou o único, se ainda existe esse potencial transformador na defesa do software livre ou se, por outro lado, o caráter rebelde dessa luta já não foi plenamente apreendido por grandes empresas de comunicação na web, especialmente o Google que notoriamente investe em softwares de código aberto para atrair bons programadores e promover a marca. Hoje tive o prazer de dividir a mesa com a Gisele e com um militante das antigas do campo free do movimento, o Kretcheu. No que depender deles parece que ainda há esperança, mas não deixa de ser sintomático que nossa apresentação tenha sido seguida por uma de empreendedorismo. Pelo menos a nossa estava um pouquinho mais cheia 🙂