Sobre o filtro bolha

[Post escrito em 19/11/16]

Em 2011 Eli Pariser lançou o livro Filter Bubble que se tornaria muito influente nos anos que seguiram. O texto alerta para o perigo do uso crescente de algoritmos personalizados que definem o que vemos ou deixamos de ver na internet (das buscas personalizadas do Google ao feed de notícias do Facebook). De fato, raramente alguém que pensa politicamente muito diferente da gente escreve comentários na nossa timeline e quando isso acontece nos causa uma certa estranheza. Essa estranheza típicamente nos faz questionar se não estamos vivendo em uma bolha. Não seria saudável que recebessemos mais desses comentários?

Falar em público é muito diferente do que no pessoal. No pessoal moldamos nossas falas ao interlocutor, já a fala pública é voltada para um grupo genérico como leitores de um jornal ou ouvintes de uma palestra. Não se fala em um palanque o que se diz no ouvido. O costume de proferir falas públicas até bem pouco tempo atrás era restrito a um conjunto muito pequeno de atores que desenvolveram essas habilidades: políticos, intelectuais, colunistas etc. Se as redes sociais criam uma bolha, antes disso, e julgo que muito mais relevante do que isso, elas massificaram as pessoas públicas. Se o algoritmo nos protege de certos comentários, bem antes disso nós nos protegíamos deles simplesmente não tratando de certos assuntos com determinadas pessoas. Lembram do Chico Buarque quando foi exposto aos comentários em um vídeo dele?

Creio que muito mais relevante do que a bolha que as redes sociais criam, seja essa arena em que todos são pessoas públicas. Talvez as redes sociais estejam contribuindo para a polarização na sociedade, não por nos proteger de certos comentários, mas exatamente por nos expor a eles.