Pseudônimos

Pode soar estranho para os mais novos ou para aqueles que se conectaram tardiamente, mas até meados dos anos 2000 o uso de pseudônimos era a regra na internet. A construção de múltiplas personalidades no então chamado “ciberespaço” era tão disseminada que atiçava a curiosidade de muitos psicólogos pós-modernos. Por que pessoas tão simples na “vida real” construíam essas multifacetadas e complexas personalidades online?

A explicação que me agrada é a da Judith Donath. Se entendi direito seu argumento, no fundo não há nada de surpreendente no uso de pseudônimos online. Offline organizamos, ou organizávamos, nossas vidas em contextos distintos e cultivávamos diferentes personas em cada um deles. O Márcio militante, o professor e o filho são todos a mesma pessoa, mas com nuances preservada nas escolhas de assuntos tratados em cada contexto. Online, porém, a comunicação é muito menos restrita e efêmera. Assim, o uso de pseudônimos possibilitava a construção de reputações distintas para contextos distintos – algo bem diferente de anonimato, mas também diferente do cultivo de uma persona única.

No final da primeira década do milênio, com o desenvolvimento do modelo de negócios baseado na construção de perfis de consumidores, se construiu um consenso em torno da importância do uso do nome real nas redes sociais. Argumentando que o uso de pseudônimos é uma forma de proteger os sem caráter, as empresas de internet ao poucos estabeleceram a prática pouco natural do uso do nome real na comunicação online. O efeito disso é o que alguns pesquisadores chamam de colapso contextual.

Tenho sempre receio de superestimar o papel das tecnologias nas relações socais, então falo da minha experiência. Desde 2013 quando entrei na EACH e, ao mesmo tempo passei a usar o FB de maneira intensa, não consigo mais separar a persona professor, amigo e militante. Admito que cultivar uma única persona é reconfortante, mas por outro lado, é também simplificante. Tenho a sensação que neste ambiente virtual minhas relações se estabeleceram em um denominador comum de complexidade e intimidade nivelados por baixo.